Como a Velho Pescador continuou gaúcha – agora a marca é da …

Velho Pescador 5 anos: quase tão tradicional quanto o chimarrão

Começo pela notícia que os mais devotos entenderão de pronto como muito boa: a cachaçaria gaúcha Weber Haus adquiriu a conterrânea Velho Pescador. A partir de amanhã (1º de agosto), a bela e tradicional garrafa da marca da fazenda Maribo estará de volta ao mercado. Mas, para além da nota de caráter corporativo – como numa matrioska pampeira –, há histórias que se abrem e revelam outras histórias indefinidamente, num enredo cuja melhor classificação veio do próprio Evandro Weber: “bonito e transformador”.
Evandro é o diretor da Weber Haus, alambique que se destaca no universo da cachaça pela qualidade de seus produtos, que são colecionadores de prêmios, pela tecnologia agregada à produção tradicional e pelo constante desbravamento de mercados aqui e lá fora, já tendo levado o destilado nacional até o Japão. Nos Estados Unidos, uma dose de sua cachaça top de linha é vendida a US$ 135 a dose na churrascaria Fogo de chão e a Lundu (uma branca, com leve toque de umburana) segue abrindo espaços. “Com a Copa, a cachaça entrou de vez no foco. É o destilado do momento por lá”, avalia o empresário.
Dentro dessa história está a de um sítio no Lote 48, em Ivoti, Vale dos Sinos, onde a família Weber se instalou em 1824 – o que significa que eles estavam na primeiríssima leva de alemães que chegaram ao Sul do Brasil, justamente naquele ano. Ali, eles deram início à produção dos schnapps à base de batatas tão apreciados pelos colonos, cuja matéria-prima foi aos poucos substituída pela cana-de-açúcar. Cento e cinquenta anos depois, o tataraneto Evandro (irmão de Eliana, Mariane e Edete) ainda trabalhava no lote. “Não tenho vergonha de falar. Em 2001, eu colhia cana com o facão pra fazer a cachaça. Depois, trocava de roupa e ia para a reunião da Aprodecana (a associação de produtores gaúchos)”, conta o gaúcho.
Aí, vem a história de Marcelo Borsato, antigo presidente da Aprodecana. Em 1985, o descendente de uma família de italianos que lidava com a fabricação da grappa há gerações, comprou uma fazenda em Osório (RS), no litoral gaúcho, à qual deu o nome de Maribo. Borsato trabalhara, até ali, com a produção de malt whisky e aplicou seu conhecimento na criação de uma cachaça refinada, envelhecida em carvalho, à qual deu o nome de Velho Pescador, em homenagem aos gaudérios que resistiam ganhando a vida com a pesca nas águas da Pinguela, lagoa às margens da qual estão as terras da fazenda da família.
A Velho Pescador se distinguia pela suavidade e logo chamaria a atenção também pela bela garrafa, num tempo em que as pingas eram comercializadas, quase em sua totalidade, em garrafas de litro ou de cerveja. “Eu conheci aquele homem, benquisto por todos, reconhecido pelo seu trabalho, e me inspirei nele. Botei na cabeça que eu seria tão conhecido quanto ele”, conta Evandro, desvendando a gênese da mudança de padrão que transformou a antiga cachaça Primavera, vendida a R$ 1, nas atuais Weber Haus, em suas várias versões. “Não tinha esse dinheiro, mas gastei R$ 9 mil pra fazer o molde de uma garrafa com o mesmo fabricante em que o Marcelo encomendava as dele. Melhorei meu produto. E tudo foi dando certo assim”.
No início deste ano, com Marcelo aposentado e a Velho Pescador perdendo espaço, a família resolveu se desfazer do negócio de cachaça. Quando soube disso, em maio, Evandro tomou um susto e ligou para Jean, filho do patriarca e hoje à frente dos negócios da família: “Bah! Que é isso?”. E teve a confirmação de que a produção tinha parado em dezembro e a marca, com todos os equipamentos, estava à venda, com grupos mineiros já de olho no negócio.
Evandro desligou e contou a novidade a seus colaboradores. “Bah, mas tu não perguntou o preço!?”, foi a resposta que ouviu. Era o que ele precisava. “Eu não podia deixa vender para outro estado. Tem a história da Pinguela, a da marca Santa Martha, que vem junto, e foi a primeira destilaria do estado (1928), a do Marcelo… Corria o risco de isso tudo ficar de lado e morrer à míngua”.
No dia seguinte, Evandro voltou a falar com Jean. “Me dá o preço, tchê!”, pediu. O amigo disse o valor (que o gaúcho, à mineira, não revela), mas juntou que teria “orgulho em vender para ele” porque saberia que o empresário iria “fazer o que tem que ser feito” e completou, dizendo que dividiria o pagamento em “umas 90 vezes”. O descendente de alemães pediu para ter a preferência no negócio por uma semana e disparou telefonemas para seus parceiros, que lhe deram o suporte de que precisava. Dois dias depois, fechou o negócio.
Mais duas semanas, e começou a mudança do alambique da Velho Pescador do litoral para o Vale dos Sinos – tudo querências gaúchas. “O alambique está numa sala separada. Vamos procurar manter o máximo possível o que vem sendo a Velho Pescador”, diz Evandro, que, no entanto, já teve que atualizar alguns processos, como a adoção de melhor controle de temperatura na alambicagem e a mudança da levedura. “No rótulo, virá a marca WH para que o consumidor saiba que esse já é um lote sob nossa responsabilidade”.
Portanto, o portfólio da WH agora conta com a Velho Pescador Ouro, envelhecida um ano e meio em carvalho; a ótima Velho Pescador Extra Premium, cinco anos em carvalho; a Velho Pescador Prata; a Santa Martha Prata; a Santa Martha envelhecida em grapia e a 30 Luas, envelhecida dois anos e meio (ou 30 luas).
Novas aquisições à vista? “Não”, descarta Evandro. “Essa foi movida mais pela emoção do que por alguma estratégia”, ri o empresário. “Claro que a gente vai ganhar escala, terá um portfólio mais diversificado, mas o importante é que a Velho Pescador continua gaúcha”, diz, com orgulho sul-riograndense e o espírito empreendedor teutônico que o velho Jakob trouxe para a América 190 anos atrás.

Evandro Weber, precisão germânica e paixão brasileira

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